A Arte é o Antídoto do Tecnicismo Utilitarista

Existe uma força opressora no mundo moderno que é a força da técnica. A compreensão do mundo exige do ouvinte um arsenal teórico que deixa difícil assistir até o mais simples jornal. Conceitos como “deficit primário” e “inflação”, aparecem o tempo todo, com nós todos fingindo que entendemos bem essas coisas. Até para manter essa engrenagem girando, a sociedade precisou evoluir sua educação para que ela servisse à reprodução desse linguajar complexo. Nesse processo, os centros de educação são locais para a formação intelectual técnica – e não humana – do indivíduo. Empatia é um conceito perdido, mas todo mundo estuda pré-socráticos, Platão, Aristóteles, toda a história da civilização, história do Brasil, física, química e matemática.

As pessoas perceberam de alguma forma esse fenômeno e passaram a concentrar grande parte do seu tempo no desenvolvimento dessa habilidade linguística técnica, ignorando o desenvolvimento do emocional, até porque elas poderão trocar sua habilidade por dinheiro, mas não podem trocar amor por valores financeiros. Quanto mais valorizada uma linguagem técnica, mais dinheiro se paga pela sua aplicação e, por isso, a Medicina é o curso mais buscado do país e seus profissionais altamente valorizados. E por isso também a concorrência para se tornar um médico é tão grande: não é porque vivemos numa geração de seres humanos com vocação para as ciências médicas. É grana e status, na maior parte das vezes, infelizmente. Temos médicos endinheirados, mas que odeiam lidar com pessoas.

Ler um livro? Tempo perdido! Deve-se estudar para o teste. Ver um filme? Não! Temos que aprender mais conceitos técnicos. Apreciar a natureza? Para quê? Temos que atualizar os termos técnicos que aprendemos, pois os protocolos já mudaram.

E então olha-se a sociedade e se observa-se a quantidade enorme de tecnocratas desumanizados. Verdadeiros robôs.

A arte é, ao meu ver, um bom antídoto para impedir que nos desumanizemos. Que deixemos nossas almas serem tragadas pela areia movediça dos pesados livros acadêmicos. Ao ver um bom filme, podemos nos desligar, reparar na cor que foi usada, no efeito que aquela sequência de imagens causou em nós e o porquê. É lindo e maravilhoso, deitar na rede, olhar a paisagem verde e ler um bom livro, pelo gosto de ler algo legal, diferente, que vai te fazer ver alguma coisa com outros olhos.

Sabe por que as cidades são todas as quadradas, os prédios uns cubos, as cores cinzas e frias? Pois somos uma sociedade que só preza pelo útil, pelo foco, pelo esforço obsessivo em atingir metas numéricas. É uma sociedade de técnicos e técnicas olhando para dados e para números. Mas alguém pensa: “e é bonito?”. É visualmente agradável? Aparentemente não. Um pouquinho de emoção contudo, torna clara a resposta para a seguinte pergunta: alguém é capaz de viver feliz num ambiente onde tudo é cinza?

Para mim, interromper meu caminho pela técnica e ir fazer alguns desvios na fonte da arte é a arma para me manter preocupado com o que é belo. Com o gostoso, o agradável. Essas coisas são importantes também. É uma parte da humanidade que busco não perder. Por mais que, aparentemente, todo mundo preferisse ser um robô capaz de executar perfeitamente tarefas, os humanos não são robôs. E se tentarem ser, só conseguirão ser robôs ruins (e talvez por isso a mecanização e robotização tem cada vez mais substituídos os humanos nas atividades). Sinta sua carne e seu osso. Viva. Emocione-se. Largue a calculadora por um segundo só, o dicionário de conceitos, a discussão lógica. Embrenhe-se na confusão da estética. Vá lá! Consuma arte e busque humanidade!

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