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Ironia Alleniana, a anedota de Pagliacci e o poeta que se suicidou: “O Captain! My Captain”

Robin Williams foi um dos atores mais talentosos de sua geração e teve uma carreira igualmente brilhante. Foi astro de numerosos clássicos e filmes marcantes, de forma que gastar linhas para dizer o grande sujeito que foi é dizer algo que todos já sabem, não enfrentando a verdadeira questão que choca em relação a sua morte: como alguém que fez tantos trabalhos sobre a beleza da vida e superação pode ter suicidado? É uma ironia macabra e um soco na boca de estômago, principalmente para quem absorveu muitos dos ensinamentos de seus filmes como lições para a vida.

O episódio certamente remete ao que sentiu Cliff Stern, personagem criado e interpretado por Woody Allen, no filme “Crimes e Pecados” (1989). Ele tem admiração pelo “Professor Levy”, outra personagem, cujas mensagens poéticas, líricas e tocantes¹, Cliff tem guardadas em vídeo. Porém, o detentor de palavras tão profundas também se suicida surpreendentemente², deixando Stern como nós – qual choque paralisante, boquiabertos diante do paradoxo verídico.

Qual a origem do suicídio? Por que quem aparenta ter tudo, por que quem tem bom humor, também é suscetível?

Um início de resposta passa pela compreensão do que seja a depressão. É um transtorno psiquiátrico que gera a perda de prazer pelo viver, ou seja, perde-se a vontade de fazer qualquer coisa que seja, e quando as faz, não sente nenhum ou sente menos prazer que uma pessoa normal sentiria. A anedota do palhaço Pagliacci, um poço de sabedoria no que diz respeito a questão, que é proferida, em “Watchmen”, por Rorschach quando está investigando a morte do “comediante”, traduz bem o conceito: Ouvi uma piada uma vez: Um homem vai ao médico, diz que está deprimido. Diz que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador. O médico diz: “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade, assista ao espetáculo. Isso deve animá-lo.” O homem se desfaz em lágrimas. E diz: “Mas, doutor… Eu sou o Pagliacci.” Boa piada. Todo mundo ri. Rufam os tambores. Desce o pano.

É como no filme “O Palhaço” (2011), de Selton Mello, em que o histrião, representado pelo próprio Selton, diz: “Eu faço todo mundo rir, mas quem é que vai me fazer rir?.

A depressão é uma doença séria, que precisa ser reconhecida como tal, terminando com todo o preconceito que a cerca. O depressivo vai segundo a segundo, afundando cada vez mais na areia movediça que são as trevas da morte, e enquanto é sugado nesse buraco negro de desilusão e desesperança, sofre com sua incapacidade de lutar, sua fraqueza, sua pequenez, até que de tão pequeno some, sem ar, sem vida, e então como o fim de uma cruel piada, talvez nos reste rir, para não chorar.

O suicídio não advém das dificuldades que o homem possa ter para viver³. Robin não se matou por causa das drogas. Antes, o porquê de ter entrado no caminho dos tóxicos é a depressão. O suicídio e a depressão são filhos da falta de amor e reconhecimento. Pagliacci sabia fazer rir, mas não tinha o dom de rir de si mesmo. Robin sabia fazer rir, mas sendo humano e frágil, talvez não se sentisse suficientemente amado, o que não seria nenhuma surpresa diante do mundo que se encara hoje. Gigante, assustador, cruel e incompreensível. Mais tenebroso que qualquer Leviatã jamais imaginado. Mais que engolir corpos, o monstro da contemporaneidade engole almas. E o antídoto são os laços sentimentais que construímos com os grupos dos quais fazemos parte. É se sentir parte, aceito, útil e bom. É buscar bons amigos, hobbies e uma compreensão da vida que seja mais suave.

O conto trágico do suicídio de Robin tem um final horrível. Talvez se tivesse lembrado do que seu personagem mais memorável, o professor John Keating de “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989) prelecionou, o resultado teria sido diferente:

Boys, you must strive to find your own voice. Because the longer you wait to begin, the less likely you are to find it at all. Thoreau said, “Most men lead lives of quiet desperation.” Don’t be resigned to that. Break out!

(Meninos, vocês devem se esforçar para encontrar sua própria voz. Pois quanto mais esperarem para começar, menores serão as chances de vocês a encontrarem. Thoreau disse, “Maioria dos homens levam vidas de bastante desespero”. Não fiquem sujeitos a isso. Saiam dessa!)

A própria voz pode ser encontrada na família, na amizade e em um trabalho que te orgulhe, em síntese, no amor. Sem amor não existe espelho. Não se sabe o que é ou como se parece. É viver sendo uma imagem que não consegue ver ou sentir. Quiçá, por tal motivo foi proferido pelo filósofo Jesus: “tudo o que a sua mão encontrar para fazer, faça-o com todo o seu coração”.


¹: Uma dessas mensagens é a seguinte: “We are all faced throughout our lives with agonizing decisions. Moral choices. Some are on a grand scale. Most of these choices are on lesser points. But! We define ourselves by the choices we have made. We are in fact the sum total of our choices. Events unfold so unpredictably, so unfairly, human happiness does not seem to have been included, in the design of creation. It is only we, with our capacity to love, that give meaning to the indifferent universe. And yet, most human beings seem to have the ability to keep trying, and even to find joy from simple things like their family, their work, and from the hope that future generations might understand more”

²: O suicídio pode dar a impressão, até por ser uma atitude contra-intuitiva, de ser inesperado. Porém, o suicida não costuma tomar essa decisão da noite pro dia, e o ato geralmente ocorre com uma piora do quadro de depressão.

³: “Em resumo, assim como o suicídio não decorre das dificuldades que o homem possa ter para viver, o meio de deter seu avanço não é tornar a luta menos dura e a vida mais fácil. Se hoje as pessoas se matam mais do que outrora, não é porque para nos manter devamos fazer esforços mais dolorosos nem porque nossas necessidades legítimas sejam menos satisfeitas; é porque já não sabemos até onde vão as necessidades legítimas e não percebemos mais o sentido de nossos esforços” (p.506, “O Suicídio”, Émile Durkheim)